Mínimas Coisas

Banalidades Cotidianas

Conhecimento

Força é igual o produto da massa pela aceleração. Peso não é massa, peso é o produto da massa pela aceleração da gravidade. Gravidade é a força que os astros exercem sobre os corpos que estão próximos a eles. Todos os corpos do universo se atraem, inclusive você e eu, você e qualquer um destes objetos que lhe rodeiam, essa é a lei da gravitação universal: dois corpos quaisquer do universo se atraem com uma força tal que é igual ao produto da massa destes corpos dividido pelo quadrado da distancia entre eles e multiplicado por uma constante universal cujo o valor aproximado é 6,67 x 10-11. Essa lei é bastante semelhante à uma outra lei da natureza, a lei de Coulomb,que determina a força de atração ou repulsão entre duas cargas elétricas, só a constante que é diferente: 9,0 x 10⁹…

Um pêndulo simples oscila com um período tal que é determinado pelo dobro do número pi vezes a raiz quadrada do comprimento deste pêndulo dividido pela aceleração da gravidade local. (quem dera se pudêssemos usar essa relação matemática para entender a oscilação do caráter de um ser humano)

  • Pi é um número irracional obtido pelo quociente entre a medida de uma circunferência e o seu diâmetro. Circunferência é um conjunto de pontos equidistantes de um ponto central.
  • Ser humano é um animal bípede, de descendência primata que provavelmente será o responsável pela extinção de todos os seres vivos deste planeta, inclusive ele mesmo.
  • Caráter é uma característica humana que está relacionada ao seu nível de ética. Ética ééé… Bem, é difícil demais conceituar ética. Deixemos a ética pra lá, todos à deixam de lado mesmo.

Literatura é uma forma de arte. Não me pergunte o que é arte, Este é mais um elemento do vasto conjunto formado pelas coisas/fenômenos que eu ignoro. Deste conjunto também fazem parte o amor, eu mesmo, o universo…. Pergunte à Picasso o que é arte e ele dirá que arte é uma mentira que revela a verdade, pergunte à sua mãe o que é arte e ela dirá que arte é o que você fazia quando era pequeno. (Algumas mães podem dizer que arte é o que você faz até hoje.) Voltando à literatura, eu me arriscaria a dizer que literatura é uma forma que os seres humanos encontraram para expressar seus sentimentos, expor seus pensamentos, contar uma história (real ou não) e tudo isso por meio das mais variadas estruturas/métodos/técnicas linguísticas: aliteração, metáfora, ironia, metalinguagem, etc…

  • Metalinguagem é a coisa falando sobre a própria coisa…
  • É uma poesia que fala sobre poesia,
  • É uma pintura que retrata uma pintura
  • É Tânia falando sobre a beleza das flores e a plenitude do amor.

Amor… eu já disse que amor é uma das coisas cujo o conceito eu ignoro, ultimamente tenho me contentado apenas em senti-lo. Isso basta. Assim como me basta também sentir Deus nos mínimos detalhes da natureza, como na dilatação anômala da água. As substancias se dilatam quando submetidas à variações de temperatura. O valor dessa dilatação depende do coeficiente de dilatação. Coeficiente de dilatação é uma grandeza característica de cada substância. Em geral, os corpos se dilatam aumentando seu volume quando a temperatura aumenta. Mas a água quando a temperatura varia de 0 a 4 graus célsius ela reduz o seu volume, diferentemente das demais substâncias. Essa propriedade particular da água explica porque a água congela de cima para baixo e não de baixo para cima.

Se a água congelasse de baixo para cima, os rios e lagos de regiões muito frias, ficariam completamente congelados no inverno, isso seria muito prejudicial à vida em ambientes aquáticos. E se você se lembra das teorias evolucionistas que sugerem que a vida primitiva só existia na água então você pode imaginar porque a dilatação anômala da água pode ter sido tão importante para o desenvolvimento da vida na terra. A natureza está cheia de detalhes geniais como estes que fazem toda a diferença. Detalhe Genial = Deus. Já que falei de Deus, aprendi que existem tantas definições para Deus quanto pessoas tentando defini-lo. Aprendi (aceitei) também que todas elas estão corretas.

O carbono é o principal constituinte dos compostos orgânicos. O DNA é uma molécula orgânica. O DNA é a molécula que carrega nossas informações genéticas. Molécula é um conjunto de átomos que se unem por meio de uma ligação covalente. O átomo é a unidade estrutural da matéria. Os átomos se ligam para adquirir estabilidade. Uma ligação entre átomos é chamada de ligação química. As ligações químicas podem ser iônica, covalente ou metálica. Os átomos se ligam ou se separam por um processo chamado reação química. As reações químicas originam novas substancias. As “novas substancias” produzidas em uma reação química são os produtos, as substancias originais de uma reação química são os reagentes. As reações químicas podem absorver ou liberar energia. Uma reação nuclear libera uma absurda quantidade de energia, absurdo foi o que o que o homem fez de posse dessa informação.

As células são as unidades estruturais da vida. Um conjunto de células constitui um tecido, um conjunto de tecidos constitui um órgão, um conjunto de órgãos constitui um sistema e um conjunto de sistemas constitui um indivíduo.

Um conjunto de indivíduos com características semelhantes formam uma espécie, um conjunto de indivíduos de uma mesma espécie forma uma população, um conjunto de populações formam uma comunidade. Um ecossistema é composto por uma comunidade mais os fatores abióticos do meio. Fatores abióticos é o conjunto dos seres não vivos.

A maioria das populações crescem até que o meio ambiente ofereça resistência a este crescimento. O homem, através da medicina e da tecnologia desenvolveu várias formas de burlar a resistência do meio.

  • Medicina é a ciência da cura e prevenção de doenças
  • Tecnologia é a aplicação dos conhecimentos ciêntificos à produção de artefatos diversos para as mais variadas finalidades.

Se, sobre uma determinada população, deixa de agir a resistência do meio, então temos um sério problema ecológico. Mas acho que a natureza (genial natureza) encontrou uma forma de limitar o crescimento das populações humanas, e as vezes com auxilio do próprio homem (Terremotos,  tempestades, guerras, fome… ).

Conhecimento… de que nos valem tanto conhecimento, se ainda não aprendemos respeitar as diferenças de nossos semelhantes… se ainda somos predadores de nossa própria espécie.

  • Predador é um ser que destrói outro violentamente…

junho 21, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

(By Manoel Bandeira)

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
– Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua…


junho 7, 2011 Posted by | Geral | 2 Comentários

Software livre não nasce em árvores: Do colonialismo ao extrativismo digital

Artigo escrito por Jomar Silva e postado originalmente no blog Trezentos.

“Sei que muita gente que conheço e admiro vai ficar irritada com este artigo, mas acredito que já atingimos um nível de maturidade suficiente na comunidade de software livre brasileira para que possamos encarar de frente nossos próprios fantasmas. Sei também que o artigo é longo, mas acho que vale a pena a leitura. Cedo ou tarde vamos precisar fazer a reflexão aqui proposta.

Optei por escrever este artigo junto com um grupo de amigos experientes dentro da comunidade para evitar que ele seja classificado como sendo a opinião de uma única pessoa. Todos os amigos convidados já estão há bastante tempo na comunidade de software livre e todos eles já sentiram na pele os efeitos dos problemas aqui relatados. Optei por não listar seus nomes neste artigo, para que eles mesmo possam fazê-lo nos comentários.

Depois de tantos anos militando e trabalhando com software livre, fico impressionado em ver como as pessoas comumente usam o termo “a comunidade” como se ela fosse uma empresa ou coisa parecida. Muitas vezes vejo as pessoas falando da comunidade como se não fossem parte dela, como se não tivessem nenhuma obrigação em relação à manutenção dos projetos desenvolvidos de forma comunitária. Muita gente entende que ser usuário de redes sociais organizadas em torno de projetos de software livre seja o mesmo que ser membro de fato da comunidade do projeto em questão, além de acreditar piamente que todos naquela comunidade estão mesmo interessados em trollagens e críticas despropositadas.

Fazendo uma breve revisão do que aconteceu nos últimos anos na área de tecnologia no Brasil, vemos que nossa indústria de informática foi praticamente destruída no início dos anos 90, e passamos quase duas décadas sendo meros consumidores de tecnologia da informação, do hardware ao software. É a isso que chamo de colonialismo digital, pois tal como na época do Brasil colônia, acabamos consumindo tudo aquilo que os colonizadores nos empurravam. Vale lembrar aqui, que durante o início do século XIX, o Brasil chegou a “importar” um navio de patins para patinação no gelo da Inglaterra, uma vez que estes produtos estavam entupindo os estoques ingleses e precisavam ser desovados em algum lugar. Os historiadores contam que nesta época, as lâminas dos patins acabaram sendo utilizadas como facas e facões e assim fomos levando a vida: dando o jeitinho brasileiro para cumprir com nosso papel de colônia.

Durante quase vinte anos, fizemos a mesma coisa com produtos de tecnologia da informação e me lembro de ter presenciado algumas aberrações nesta época. De computadores que não suportavam o calor tropical brasileiro a softwares que invertiam completamente nossa lógica organizacional, vivemos décadas “dando um jeitinho” para as coisas funcionarem e não foram raros os casos em que tivemos que nos re-organizar para que pudéssemos utilizar as tecnologias “ofertadas”. Quem aí nunca encontrou um banco de dados armazenado dentro de uma planilha com milhares de linhas ou não viu uma reengenharia quase irracional acontecer na marra por conta do ERP da moda que atire a primeira pedra.

Tamanha foi nossa aceitação do papel de colonizados, que no final da década de 90 não era raro encontrar universidades que ao invés de lecionar “Sistemas Operacionais”, lecionavam “Windows NT”, ou trocavam “Banco de Dados Relacionais” por “Oracle” ou “DB2” e por aí seguia a carruagem. Fui aluno em uma dessas (que aliás é uma universidade de renome e destaque em São Paulo). Me lembro que fui voto vencido quando fui debater este assunto com a coordenação do curso, pois para eles importava ensinar “o que o mercado cobrava”. Pior do que ser voto vencido entre os coordenadores e mestres do curso, foi ter sido voto vencido entre meus colegas de turma, pois a imensa maioria deles estava tão acostumada com o fato de ter tudo mastigado nas mãos, que não se importava em não dominar de fato a tecnologia ou entender o que acontecia debaixo do capô. Estavam mais preocupados em “colocar no curriculum” o que aprenderam na faculdade. Amém !

Foi assim que formamos no Brasil centenas de milhares de profissionais de TI que não passavam de usuários avançados de ferramentas de software desenvolvidas fora do Brasil. Hoje, uma parte considerável destes profissionais são gestores de TI em diversas empresas públicas e privadas, e isso explica o principal motivo da resistência que encontramos no nosso dia a dia ao Software Livre dentro das organizações: a zona de conforto é grande e a inércia gerada por ela é muito difícil de ser quebrada.

É evidente que este modelo interessa às grandes empresas multinacionais de software, e confesso que hoje chego a achar graça das explicações dadas a eles sobre “o modelo”. Sempre que questionadas publicamente sobre este tema, vemos as empresas se defendendo com o argumento de que geram milhares de empregos diretos e indiretos no Brasil, e que fazem “transferência de tecnologia” à indústria local, principalmente através de seus parceiros e de projetos junto à universidades.

O que vemos na prática é que a imensa maioria dos empregos diretos criados por estas empresas estão focados na área comercial e nas metas de curto prazo, e que os empregos “técnicos” costumam se concentrar em seus parceiros e solution providers, que evidentemente não têm acesso às informações detalhadas, e muito menos ao código fonte, dos produtos que “suportam” no mercado. A segurança e confiança por obscuridade é o que impera nesta seara.

Quando olhamos o trabalho feito por elas junto às universidades, vemos novamente que o foco é sim formar cada vez mais usuários avançados de seus produtos, e conseguir com isso firmar a dependência tecnológica desde na base da cadeia alimentar na indústria de TI. É muito fácil comprovar isso quando vemos “versões educacionais” dos softwares comercializados por estas empresas serem distribuídos com água dentro das universidades. Encerrou o curso e tem um software completo desenvolvido: ótimo… vamos lhe enviar a fatura em 3, 2, 1…

É importante lembrar que este modus operandi não é exclusividade de uma única empresa, mas é de fato a prática de mercado de todas as multinacionais de TI (das mais fechadas e perseguidas por todos até a “mais aberta” e idolatrada pela maioria).

Foi num cenário de total colonização tecnológica como o ilustrado acima que o Software Livre cresceu no Brasil, principalmente durante os últimos 10 anos. Eu atribuo este crescimento à vontade gigantesca de conhecer tecnologia de verdade que alguns profissionais de TI no Brasil tinham, mas conforme o movimento foi crescendo, tenho a impressão de que estes profissionais cada vez mais são raros de se encontrar e o que vemos de fato hoje, é a busca pela substituição pura e simples de um software proprietário por um equivalente livre (e não quero entrar aqui na discussão filosófica por trás disso).

Considero que seja fundamental termos no Brasil uma comunidade tão militante e ativa na publicidade e no suporte às soluções de software livre, mas infelizmente isso não é suficiente, pois deixamos de ser colonizados digitais e somos hoje extrativistas digitais.

Não exagero em dizer que hoje o Brasil tem em números absolutos a maior comunidade de usuários de Software Livre do mundo, e olha que a TI ainda não chegou a tantos lares assim no Brasil, portanto temos ainda muito a crescer. O que me deixa muito chateado é constatar que ao mesmo tempo, temos uma comunidade de desenvolvedores de software livre quase inexistente (eu mesmo conto nos dedos das mãos os desenvolvedores de “código fonte” em projetos de software livre que conheço). A dita “comunidade” é a primeira a se manifestar e apontar defeitos nos muitos projetos que “participam”, mas na hora de enviar contribuições realmente significativas quase ninguém aparece.

É por isso que afirmo que vivemos hoje o extrativismo digital: encontramos uma fonte aparentemente inesgotável de recursos e estamos usando e abusando dela, sem nos preocupar com a sua manutenção. Isso pode até nos dar uma sensação de liberdade e controle do próprio nariz bem confortável, mas não nos levará a lugar algum e pior do que isso, quando a fonte se esgotar (e sim, ela pode se esgotar um dia), voltaremos à nossa vidinha de colonizados, e seremos novamente saudosistas de uma “era de ouro”, tal como nossos amigos mais velhos hoje se lembram da reserva de mercado.

O que quero com este artigo é forçar uma reflexão dentro da nossa comunidade, pois é evidente que software livre não nasce em árvores, e existem pessoas trabalhando muito escrevendo código fonte por trás dos softwares livres que utilizamos no dia a dia.

Devo reconhecer porém, que somos muito ágeis e experientes em traduzir estes softwares para nosso idioma, mas todos devem concordar comigo que isso é o mínimo do mínimo que podemos fazer. Lembre-se de que teremos alcançado o sucesso pleno quando a tradução for problema dos outros !

Não consigo me contentar com isso e por isso peço a todos que façam uma séria reflexão: Quando foi a última vez que você contribuiu de verdade com um projeto de Software Livre ?

Rodando o mundo palestrando em eventos de software livre, esta é a diferença primordial que vejo entre outros países e o Brasil. Na maioria dos países, a meritocracia funciona de verdade e o reconhecimento vem na base de muito, mas muito código fonte contribuído para os projetos. Como já contei a diversos amigos, em muitos países fora do Brasil, para que você possa “tomar uma cerveja” com os líderes dos projetos de software livre, você provavelmente já trabalhou bastante construindo e depurando código com eles.

Acho que é parte da cultura latina ser expansivo, mas não podemos deixar que nossa ânsia por fazer amigos acabe os deixando desviar tanto assim do nosso objetivo comum: Desenvolver de fato softwares livres que supram as necessidades de nosso mercado, que nos permitam dominar a tecnologia e que paguem nossas contas no final do mês.

Quando analisamos a cadeia de valor na indústria de software livre no Brasil hoje, vemos que diversos nós da cadeia são remunerados, mas que ainda não encontramos uma forma concreta de remunerar de verdade o principal nó: O desenvolvedor.

É muito fácil cair no discurso de que “quem implementa, treina e suporta também desenvolve”, mas na prática vemos o oposto disso.

O que me consola é que este problema não é exclusividade nossa, e nos últimos meses tenho visto diversos projetos de software livre desenvolvidos internacionalmente passar por sérias dificuldades por conta do mesmo problema.

Voltando ao Brasil, conheço ao menos um software livre desenvolvido aqui no Brasil e que é utilizado no país todo, além de ser suportado por centenas de empresas, mas que tem como desenvolvedores ativos apenas duas pessoas, sendo que uma delas (e talvez o desenvolvedor chave), não seja de forma alguma remunerado. Não vou dizer o nome do software aqui para não ser deselegante com as pessoas envolvidas em seu ecossistema, mas garanto que pela descrição acima você já deve ter identificado alguns softwares como potenciais candidatos.

Em uma recente discussão que tive com um dos pioneiros do Open Source mundial, ele me dizia que o modelo de subscrição nunca foi de fato compreendido pelo mercado, e concordo com ele que este modelo é o mínimo que podemos ter para garantir a manutenção dos projetos e de seus desenvolvedores. É mesmo uma pena ver que muita gente afirmar sem vergonha alguma que “subscrição é licença disfarçada”, e aqui incluo inúmeros colegas do movimento do software livre. Sinto lhes informar que não, não é, mas concordo que é muito fácil pensar assim quando seu contracheque chega no final de todo mês.

Indo mais a fundo no problema, fico extremamente chateado em ver a falta de consciência de inúmeros gestores de empresas públicas e privadas que economizam centenas de milhões de reais por ano em licenças de software, mas que não investem sequer um centavo no desenvolvimento e manutenção de projetos de software livre que utilizam no seu dia a dia.

Um exemplo gritante do que afirmo acima é o Libre Office (antigo OpenOffice ou BrOffice no Brasil), que possui atualmente centenas de milhares de cópias sendo utilizadas no país todo, economizando rios de dinheiro, e que têm no Brasil uma comunidade de “desenvolvedores de verdade” quase irrisória. O que me deixa muito mais chateado com isso, é que estes poucos heróis nacionais quase sempre levam uma vida de privações em prol da coletividade e tudo o que recebem de volta são tapinhas nas costas e nos últimos tempos ainda tem que aceitar calados, críticas injustas vindas de todas as partes. Não vou nem comentar aqui sobre a vida que levam os que decidem trabalhar com o desenvolvimento de padrões, mas posso afirmar que invejamos a vida dos desenvolvedores de software livre no Brasil.

Não quero que este seja um artigo de lamentações, e por isso eu gostaria de deixar algumas sugestões para que possamos de fato aproveitar esta oportunidade que temos nas mãos e mudar de uma vez por toda a história da TI no nosso Brasil. Muitas das sugestões vão parecer óbvias e genéricas, mas acredite, nunca foram de fato implementadas:

  • Empresas que utilizam softwares livres deveriam ter desenvolvedores trabalhando no desenvolvimento destas soluções ou se não puderem ter estes desenvolvedores, que exijam que as empresas que lhes prestam serviços de suporte e treinamento em software livre tenham desenvolvedores ativos nos projetos, e que comprovem suas contribuições periodicamente. Esta prestação de contas aliás deveria ser pública.
  • Universidades poderiam deixar de usar exemplos genéricos e trabalhos “inventados pelos professores” nas disciplinas de desenvolvimento de software e ter como meta a cada semestre otimizar um trecho de código fonte existente ou implementar uma melhoria ou nova funcionalidade em um software livre existente. O mesmo vale para outras disciplinas como marketing e design. Uma simples mudança da atitude como esta daria aos envolvidos uma experiência prática no mundo real com projetos concretos, ao mesmo tempo que lhes permitiria alcançar os mesmos objetivos didáticos (já imaginou onde chegaríamos com isso ?).
  • Já temos diversas leis, decretos e instruções normativas no Brasil recomendando ou determinando a utilização de Software Livre e de Padrões Abertos em diversas esferas governamentais, mas infelizmente os órgãos de controle e fiscalização parecem desconhecê-las. Não consigo avaliar quem é o culpado por isso, mas sei que nós como sociedade temos o dever de cobrá-los, e talvez esteja aí a grande missão de todos os membros da comunidade que não podem contribuir de forma técnica com os projetos de software livre.
  • Muita gente não tem conhecimento técnico para escrever código fonte e contribuir com os projetos, mas lembre-se que um software livre de sucesso não vive só de código fonte e por isso mesmo sempre existe algo não relacionado a código fonte que precisa ser feito. Se envolva de verdade com a comunidade de desenvolvedores dos softwares que você usa e por favor, contribua de forma concreta com seu desenvolvimento. Ajudar de verdade é atender a necessidade do outro e não a sua própria necessidade. A diferença entre o voluntariado e o voluntarismo é gigantesca, mas muito difícil de ser compreendida.

Não acredito em contos de fadas e também não acredito que um dia uma empresa estrangeira vai decidir do dia para a noite que o Brasil é a bola da vez para concentrar aqui o seu desenvolvimento de software. Temos que conquistar isso, temos que fazê-lo do nosso jeito e temos sim potencial para reconstruir de verdade nossa indústria nacional de software e Tecnologia da Informação. O que não podemos fazer é ficar aqui sentados esperando o milagre acontecer, imaginando que estamos no caminho certo. Pequenas correções de rota podem sim nos levar a algum lugar completamente diferente e melhor do que o nosso destino atual.

Caso você ou sua empresa queira contribuir com um projeto de software livre e não saiba como, me coloco à disposição para ajudar e orientar.

Peço que reflitam sobre o seu papel na solução do problema aqui apresentado. Temos um elefante na sala e só não ver quem não quer.

Aguardo ansiosamente os comentários e espero que possamos abrir este debate tão necessário nos dias de hoje.”

Por favor, comentem no Post Original!

junho 6, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Eu sei que vou te amar!

Composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, na voz de Adriana Calcanhoto

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que eu vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência sua eu vou chorar
Mas cada volta sua há de apagar
O que essa ausência sua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

maio 17, 2011 Posted by | Geral | 2 Comentários

Sobre o amor (Ferreira Gullar)

“Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.

Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.

O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a traídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma COisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.

Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventUra sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério – o assim chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz — e volta ao bife com fritas.

Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.

A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tUdo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.

Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guarda­roupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tUdo impregnado da ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar­se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.

E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas… Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!…

Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.”

Fonte: Releituras

abril 24, 2011 Posted by | Literatura | 2 Comentários

Ninguém se importa com os “Anjos do Sol” …

Escrevi recentemente um post sobre o livro “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, no qual o autor evidência como alguns absurdos acabaram assumindo uma concepção bastante trivial no dia-a-dia… também recentemente, li um artigo no blog escreva-lola-escreva que me pareceu mais como um artigo de desabafo, uma necessidade urgente de denunciar, gritar ao mundo que a nossa sociedade tem feridas crônicas e precisam ser tratadas antes que passemos a considera-las “triviais”… vale a pena conferi o referido artigo.

O Post/Indicação-de-filme de hoje é inspirado pelo instinto denunciador suscitado pelo artigo da Lola. Anjos do sol , de Rudi Lagemann é um filme brasileiro, internacionalmente premiado, que traz como temática central a exploração sexual comercial de crianças no Brasil. Um ótimo filme… faz agente perceber que envolta desse mundinho confortável que decidimos viver existem questões mais sérias do que, por exemplo, o “paredão do BBB

março 22, 2011 Posted by | Geral | 1 Comentário

Feliz 8 de março!!!

Deixo aqui minha singela homenagem à todos estes seres humanos cheios de graça… Parabéns mulheres:

1792 – Inglaterra: Mary Wollstonecraft escreve um dos grandes clássicos da literatura feminista – A Reivindicação dos Direitos da Mulher – onde defendia uma educação para meninas que aproveitasse seu potencial humano.

1827 – Brasil: Surge a primeira lei sobre educação das mulheres, permitindo que frequentassem as escolas elementares; as instituições de ensino mais adiantado eram proibidas a elas.

1832 – Brasil: A brasileira Nísia Floresta, do Rio Grande do Norte, defendia mais educação e uma posição social mais alta para as mulheres. Lança uma tradução livre da obra pioneira da feminista inglesa Mary Wollstonecraf. Inspirada nesta obra, Nísia escreve Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Mas Nísia não fez uma simples tradução, ela se utiliza do texto da inglesa e introduz suas próprias reflexões sobre a realidade brasileira. É por isso considerada a primeria feminista brasileira e latino-americana.

1857 – Estados Unidos: No dia 8 de março, em uma fábrica têxtil, em Nova Iorque, 129 operárias morrem queimadas numa ação policial porque reivindicaram a redução da jornada de trabalho de 14 para 10 horas diárias e o direito à licença maternidade. Mais tarde foi instituído o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, em homenagem a essas mulheres.*

1879 Brasil: As mulheres têm autorização do governo para estudar em instituições de ensino superior; mas as que seguiam este caminho eram criticadas pela sociedade.

1893 – Nova Zelândia: Pela primeira vez no mundo, as mulheres têm direito ao voto.

1917 – Brasil: A professora Deolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino em 1910, lidera uma passeata exigindo a extensão do voto às mulheres.

1920 – Estados Unidos: Sufrágio Feminino

1922 – Brasil: Bertha Lutz funda a Federação Brasileira para o Progresso Feminino

1962 – Brasil: Nasce dona Elenilda Maria, minha mãe, a mais ilustre mulher do planeta! (embora não pareça, essa última informação é totalmente imparcial)

1962 – Brasil: É criado no dia 27 de agosto foi sancionado o Estatuto da Mulher casada, que garantiu entre outras coisas que a mulher não precisava mais de autorização do marido para trabalhar, receber herança e em caso de separação ela poderia requerer a guarda dos filhos.

1975 – México: Ano Internacional da Mulher. A ONU promove a I Conferência Mundial sobre a Mulher, na Cidade do México. Na ocasião, é criado um Plano de Ação.

1979 – Brasil: A equipe feminina de judô inscreve-se com nomes de homens no campeonato sul-americano da Argentina. Esse fato motivaria a revogação do Decreto 3.199.**

1980 – Brail: Recomendada a criação de centros de autodefesa, para coibir a violência doméstica contra a mulher. Surge o lema: Quem ama não mata.

* Hà quem diga que esta não é a origem do “8 de março”.

** 1937/1947 – O Estado Novo criou o Decreto 3199 que proibia às mulheres a prática dos esportes que considerava incompatíveis com as condições femininas tais como: “luta de qualquer natureza, futebol de salão, futebol de praia, pólo, pólo aquático, halterofilismo e beisebol”. O Decreto só foi regulamentado em 1965.

Referência: wikipedia

Parabéns por tudo que vocês já conquistaram, e por tudo que ainda vão conquistar.

 

março 8, 2011 Posted by | Geral | 1 Comentário

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda…

 

março 7, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Sobre sexo, violência, canibalismo e outras coisas

“É tão fácil matar uma ou duas pessoas. principalmente se você não tem motivo para isso” (74 Degraus – Rubem Fonseca)

Li recentemente o Livro “Feliz Ano Novo” de Rubem Fonseca. A obra reúne 15 contos cujo o tema central é a barbárie,   a violência e seus derivados. Embora também existam contos que falam sobre escritores mal sucedidos, jogadores de futebol que sonham com a glória, famílias com estranhas tradições canibalistas e revistas femininas que não é escrita por mulheres nem tão pouco lida por elas.

Um dos pontos interessantes (ou intrigantes) da obra, é o tratamento trivial que o autor da a acontecimentos trágicos. Se em um primeiro momento essa trivialidade gere um certo espanto, uma análise mais cuidadosa nos permite perceber que essa trivialidade não nasce no livro, ela é própria da nossa sociedade “desenvolvida” e “civilizada”.

bom, eu gostei do livro, acho que leituras como estas nos fazem repensar a nossa sociedade e seus valores de forma mais crítica.. Se está procurando um livro pra ler, Feliz ano novo de Rubem Fonseca pode ser uma boa opção!

março 6, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Poema em linha reta

By Alvaro campos (Fernando Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

março 2, 2011 Posted by | Literatura | 2 Comentários